Woody Allen surpreende com comédia otimista
Por Hilda Lopes Pontes
Woody Allen é reconhecido mundialmente pelos seus longas irônicos, ácidos e, geralmente, sempre com seu álter ego em uma das personagens. Muitas dessas características estão em Tudo pode dar certo (que possui o título original bem mais significante, Whatever works), porém o que mais surpreende é o tom otimista do filme, o espectador espera aquele momento dos filmes de Allen em que algo dará extremamente errado, e que é uma das características mais interessantes dos filmes do diretor, mas, pelo contrário tudo flui normalmente e o ritmo se arrasta.
Larry David é Boris Yellnikoff, ex-professor da Universidade de Columbia, considerado gênio, mas que depois de um divórcio e uma tentativa de suicídio, dá aulas de xadrez e passa a maior parte do seu tempo desmerecendo as qualidades humanas e se considerando o único capaz de entendê-las. Um dia, voltando para casa, ouve uma garota implorando por ajuda e comida. Então, Boris conhece Melodie St. Ann Celestine. Inicialmente, ele a deixa ficar por não pensar em outra solução para a menina que fugiu de casa, mas, aos poucos, percebe-se apaixonado.
O roteiro é preciso e colocar Boris para conversar com o público, sabendo que está sendo observado, é uma ótima sacada que deixa certos momentos e piadas ainda mais cômicos e dinâmicos. A personagem é muito bem construída, tanto por David, quanto por Allen. Só o fato de Yellnikoff cantar "parabéns pra você" toda vez que lava as mãos já deixa claro o quanto a personagem vale a pena e é neurótica (não podia deixar de ser). Alias, a mesma indagação do filme O Dorminhoco (1973) é feita. A questão: porque as comidas ruins são as que são saudáveis? Será que isso realmente é verdade?
Os outros atores também se destacam. Eva Rachel Wood, que normalmente faz papéis de mulheres fortes ou vilãs, consegue trazer um açúcar, uma doçura para Melodie. Também no elenco, Patrícia Clarkson, que interpreta a mãe de Rachel Wood. A transição de comportamento dela é marcante e muito bem construída.
Tudo pode dar certo agrada e faz rir, tira a saudade dos filmes de Allen, mas não pode estar na lista dos melhores do diretor, como Vicky Cristina Barcelona ou Manhathan. Não tem a constância e o ritmo dos filmes dele, nem traz algo inovador e diferente de tudo que o cineasta já fez.


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